O meu pai é a pessoa mais complexa que eu conheço. E tendo em conta que eu conheço gente verdadeiramente complicada.
A maioria dos pais recebe hoje uma prendinha com uma certa emoção, todos comovidos. O meu não. Porque é consumismo, porque é um gasto desnecessário... mas isto é dito não pela vertente do "não é preciso mas adorei", é mesmo porque acha absurdo.
Tenho alguma dificuldade em escolher um presente, que prefiro que seja simbólico, como um poema meu ou algo do género. Confesso que me custa usar clichés como "o melhor pai do mundo", porque são frases vazias e porque, muito sinceramente, não acho que seja o "pai campeão".
Se na adolescência eu era a miúda estudiosa submissa às regras, agora isso mudou. Eu anulei-me para conseguir os objectivos académicos mas, uma vez estes atingidos, fui deixando a minha personalidade libertar-se ao longo destes anos. E hoje sinto-me consciente de quem sou, do que gosto, do que quero... e sinto-me livre.
Mas o meu pai preferia a menina submissa, pensou que era essa a minha verdadeira personalidade. Mas acontece que há muita vida em mim, irreverência, muita vontade de viver, de aventura, de amor pelas pessoas! Somos muito diferentes, e ele não percebe que o papel dele como educador deveria estar a transformar-se em papel de companheiro, de amigo. Mas não, limita-me não a liberdade interior, mas a "exterior", se é que assim se pode chamar.
Uma noitada com amigos pode ser um problema nuclear. Quinze minutos depois da hora de jantar é considerado uma falta de respeito... and so on.
Já percebi que, enquanto viver debaixo deste tecto, as regras são essas. Os sermões, esses, já nem os oiço, nem me afectam, porque a minha opinião está formada. Chegará o ansiado dia em que terei o meu próprio tecto, e aí sim, a vida vai ter o sabor que eu lhe atribuo.
Até lá, faz-se o melhor que se pode. Adoro viver, adoro ver beleza nas coisas mais simples, adoro pessoas, companhia de amigos, do "grande amigo", correr, dançar, viajar, adoro o incomum. O meu pai não vê isso, e tenho pena, porque acaba por não me ver a mim.

Sem comentários:
Enviar um comentário